27 de maio de 2011

Só existe uma raça, a raça humana

Creio que a minha incompatibilidade com o sistema vem desde o nascimento. Para não me alongar posso resumir que nasci no Líbano filho de mãe baiana e pai libanês membro da resistência contra o colonialismo franco-nazista. No vai-e-vem da batalha, sobrevivi graças ao leite de uma jumenta, cujo antepassado mais ilustre transportou a Família Sagrada em sua fuga para o Egito.

E antes que me acusem de divagação explico que esse preâmbulo tem a finalidade de demonstrar que, independente do país, os inimigos da humanidade são sempre os mesmos.

Meu pai e seus companheiros não lutavam apenas pela independência do Líbano.

Buscavam um mundo mais generoso, solidário e contrário à exploração do homem pelo homem. Vários de seus companheiros sobreviveram aos franco-nazistas para sucumbir sob as botas dos novos senhores do país que falavam de uma pátria livre e próspera, mas que acabaram transformando-a num feudo discricionário graças a acordos escusos e traições sem fim.

Devia ter uns quatro anos de idade quando, em nossa aldeia, vi meu pai fugindo a pé, perseguido por quatro gendarmes a cavalo que atiraram nele sem acertar.

Meu pai e muitos de seus companheiros não quiseram trocar seus princípios pelo conforto do poder. Preferiram passar para a História com todos os riscos que isso significava.

Sobreviveu porque encontrou abrigo no Brasil.

Mas jamais esqueceu seus companheiros de luta. Foi internacionalista até o fim de seus dias. Através dele e ainda criança, conheci Prestes e as obras de Jorge Amado e Machado de Assis. Seu livro de cabeceira era o Rubayat, de Omar Khayam. Em árabe.

Com ele aprendi que as fronteiras físicas e sociais que dividem a humanidade são antinaturais e por isso precisam ser combatidas.

Repetia sempre que fazemos parte de apenas uma raça, a raça humana.


. Jorge Bourdoukan (jornalista e escritor)

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