21 de julho de 2011

Ateu, graças a Deus


Ateu, graças a Deus!

. Por Padre Júlio Antônio da Silva

Há vários anos, tive a graça de acompanhar os últimos dias de uma ilustre professora da Universidade Estadual de Maringá. Declaradamente atéia e marcadamente anti-religiosa. Combatia abertamente a todos os religiosos e a todas as manifestações religiosas, sobretudo à incipiente Pastoral Universitária que nascia no campus da nossa UEM. Dela recordo traços de um caráter muito forte. Uma personalidade invejável. Muito sincera consigo mesma. Pesquisadora de primeira grandeza. E muito empenhada na busca do seu eu pessoal. Além disso, militava em um dos partidos comunistas de nossa cidade.






Um belo dia, sabendo que eu assessorava a pastoral universitária, a ilustre professora procurou-me para uma conversa. Abriu seu coração. Relatou-me suas inquietudes em busca do sentido da vida. Narrou-me, detalhadamente, as razões de sua postura atéia. Disse-me que era mais fácil viver como se Deus não existisse porque Ele a questionava na sua autosufuciência. Dizia-me que para suas convicções existenciais era mais fácil viver sem um Deus e longe dele. Sua essência causava-lhe conflitos existenciais terríveis. A minha amiga professora queria ser deus. E, no fundo da alma, ela tinha ciúmes da onipotência, da onipresença e da onisciência divinas.






Passou um tempo bom do nosso primeiro embate. Desesperada, a ilustre professora, mais uma vez, chamou-me para uma conversa particular. Queria dizer-me outras tantas coisas. E o disse. “Júlio, eu fui apoderada por um câncer. Minha vida não vai muito longe. Sinto que algo me deixa profundamente angustiada. Mostra-me um sentido para essa tão frágil e rápida existência”. Escutei-a por, no mínimo, quatro horas cravadas. A minha ilustre amiga professora “pediu água”. Disse-me que até aquele momento sua vida foi uma perda de tempo. Tinha deixado o essencial da existência humana. E por isso pedia-me que lhe indicasse um caminho de volta às suas origens.






Perguntei-lhe: Quais? Prontamente me respondeu: “Deixei Deus fora da minha vida. Tornei-me atéia... Nasci cristã católica, quero voltar a esta fé e nela morrer”. E eu rebati: “Você não está fora... Coragem, retome o seu lugar”. E assim foi. A professora pediu-me para que a ouvisse em confissão e desse-lhe, em nome do Deus esquecido por ela, a graça da reconciliação. No final da celebração sacramental da reconciliação, ambos, ela e eu, caímos num alegre choro, daquele que marca uma grande e séria reconquista... Passados alguns meses, minha amiga professora caiu em coma. Um membro de sua família chamou-me para lhe dar os últimos sacramentos da Igreja. Dei-lhe a unção dos enfermos e logo ela veio a falecer.






Esta história veio me convencer de uma coisa: Existem ateus. Porém, mais que ateus, são pessoas que, no fundo, no fundo, buscam a Deus. Todavia, o buscam de formas travestidas e desencontradas. E em momentos decisivos da vida fazem de tudo para voltarem ao princípio de onde vieram. São ateus, graças a Deus! Muitas vezes, por força de um ato da liberdade radical, que tem por objeto o bem moral, uma pessoa, sem conhecer teoricamente Deus, reconhece-o praticamente e tende, de fato, para ele. Por isso, creio eu, nada impede que um ateu teórico, negando explicitamente o Deus historicamente revelado, afirme-o implicitamente nesse ato radical de liberdade, pelo qual se compromete totalmente. E no ato elege o sentido de sua vida.






E essa atitude de escolha, que outra coisa é, senão uma espécie de “auto-de-fé” invertido? A tomada de posição atéia difere do ato de fé do crente no fato de que em lugar de ser entrega livre a Deus, é desafio livre a esse mesmo Deus transcendente. Sobre esta posição, gosto de lembrar a observação do ex-ateu e filósofo humanista, Jacques Maritain (1882-1973), que, a partir de suas sinceras buscas, afirmava: “O ateísmo absoluto é, no fundo, uma espécie de compromisso religioso de grande estilo”.


Padre Júlio Antônio da Silva



Li este texto do padre Julinho no site do Rigon. Confesso que me emocionei. Me emocionei pelo fato narrado e pela pessoa a que ele se refere. A professora, que por razões éticas o pároco não revela o nome, foi minha professora no curso de História da UEM. Uma grande mestre, uma das melhores que já tive.
Com ela aprendi a compreender a razão dos ateus e vendo sua grandeza, mesmo nos momentos mais difíceis, quando a doença teimava em derrotar aquela mulher de fibra, reforcei minha convicção de que Deus está presente em cada coração. E estava, certamente, no dela.

Um comentário:

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Messias, costumo falar: Deus é um cara gozador; apronta CADA UMA com a gente...

E até acrescento. É preciso tomar muito cuidado com Ele!, com o que Lhe pedimos sem nenhuma convicção!

Ele costuma nos Atender assim mesmo... e aí a gente é que fica com cara de tacho, perdido com o pedido atendido.