26 de maio de 2014

Lições de um passado recente

                                                                                 . Por Carlos Chagas (blog do Cláudio Humberto)

Momentos de  nossa História recente merecem ser lembrados,   quando nada para não se repetirem. Desde 1963 que a nação estava dividida. De um lado o presidente João Goulart, empurrado por lideranças sindicais e por parte de seus correligionários para a necessidade de mudanças profundas e atabalhoadas  nos planos social, econômico e político.  Além, é claro, de suas próprias inclinações, disposto a marcar seu governo como Getulio Vargas tinha marcado o dele, por reformas capazes de beneficiar o proletariado urbano e os assalariados, além de dotar o país de uma infra-estrutura nacional. Só conseguiu alcançar essas metas através de um estado unitário, dissolvendo a federação e o Congresso. Mas levou quinze anos, sendo que Goulart, seu afilhado político, só dispunha de três, depois de libertar-se de um parlamentarismo de ocasião. Assim,  Jango estimulou movimentos de massa, geralmente pacíficos bem como  greves, que se repetiam aos montões. Adotou restrições à remessa de lucros por parte de companhias  estrangeiras, aceitou a estatização de prestadoras de péssimos  serviços públicos e criou empresas públicas que serviriam de alternativa  para as concorrentes alienígenas, como  a Central de Medicamentos, para produzir remédios a preços populares. Empenhou-se, também, numa ampla reforma agrária em condições de reduzir a presença do  latifúndio que predominava de  Norte a Sul. Libertadas tantas forças antes divididas e até conflitantes,  vieram os excessos, também unindo quantos se opunham às  chamadas reformas de base.
Insurgiram-se o empresariado nacional e multinacional,  a Igreja e os meios de comunicação, logo conseguindo cooptar a classe média, temerosa da presença do proletariado ao redor do poder e servindo de trampolim para a preservação dos privilégios das elites. Apregoava-se estar o comunismo a um passo de conquistar o Brasil, o que era renomada mentira, mas que de tantas vezes repetida, tornou-se verdade aqui e lá fora. Os Estados Unidos, acostumados a dominar o quintal latino-americano,  assustavam-se com a revolução cubana,dispostos a não permitir sua repetição do lado de cá do mundo.
Rachada de alto a baixo, a sociedade especulava a respeito da posição a ser adotada  pelasforças armadas, realmente o fator maior de decisão sobre os rumos a tomar. O presidente já tivera problemas militares quando de sua tumultuada posse, em 1961. Depois da iminência da guerra civil, prevaleceu o espírito legalista da maioria da oficialidade.  Jango imaginava que com a mudança nos comandos principais, detinha o controle de um esquema sólido e fiel à sua condição  de comandante em chefe.   Foi quando cedeu a mais uma pressão de seupano de fundo meio cego e  meio irresponsável. Apoiou reivindicações de marinheiros rebelados, anistiando-os, e também de sargentos.  Partiu para a implantação das reformas através de decretos, sem a participação do Congresso, também dividido,  ainda que mais conservador do que reformista. Disposto a mudar o país através da convocação das massas, não percebeu que já se conspirava, antes para impedir a realização de seu programa, depois para depô-lo.
O resultado é conhecido. Quando os tanques deixaram os quartéis, a classe média e as elites  aplaudiram, tendo os operários ficado em casa e os camponeses continuando a  trabalhar na enxada. O primeiro general-presidente, Castello Branco, foi entoado em loas e saudado como se tivesse sido eleito. Duas fobias, porém, envolveram o  novo governo: os militares,  confundindo adversários com inimigos, exigindo do presidente medidas de exceção e permanente caça “aos comunistas”, primeiro cassando, suspendendo direitos políticos e censurando. Mais tarde, torturando. No reverso da mesma medalha,  as elites deitaram e rolaram, através  de uma política econômica voltada para a ampliação de seus interesses, com prevalência das multinacionais. Em poucos anos e alguns generais o jogo virou. Primeiro os estudantes, mais tarde os operários, em seguida a Igreja e a classe média, formou-se uma frente ampla contrária ao regime castrense. Até uma insensata luta armada deu aos donos do poder argumentos para nele permanecerem. Só que não agüentaram. Felizmente, tudo se passou em etapas quase pacíficas. Mas saíram, depois de 25 anos.
Por que se recordam  esses episódios esparsos? Para que o leitor  classifique em que etapa  do processo nos encontramos hoje

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