12 de novembro de 2014

Um fantasma que não passa dos Andes



Um fantasma que não passa dos Andes
                                                   
                                                                          . Messias Mendes

O termo  bolivarismo é originário  do sobrenome do libertador da América do Sul. Ganhou conotação especial graças ao ex-presidente venezuelano Hugo Chávez que, se autodenominando o novo Simón Bolívar , fundou uma espécie de República Bolivariana no Continente.  Por conta das boas relações do chavismo com os governos petistas de Lula e Dilma, a oposição brasileira, sobretudo o PSDB, começou a dizer que o PT está fazendo do Brasil uma Venezuela.  Balivarismo , então, passou  a ser considerado palavra maldita no dicionário da casa grande.

O objetivo dessa onda antipetista é associar o governo Dilma ao chavismo , que virou palavrão desde que Hugo Chaves deixou a modéstia de lado e se comparou a   Simón Bolívar. Fez isso no momento em  que decidiu  bater de frente com a elite empresarial venezuelana , acusada de trabalhar  pela privatização do petróleo nacional, estimulada, evidentemente, pelos dólares de  grandes corporações  norte-americanas.

Registre-se  que  os Estados Unidos  haviam crescido o olho pra cima do Vale do Orenoco, onde se descobrira  um  lençol petrolífero maior que o  da Arábia Saudita. A privatização da PDVSA – Petróleos de Venezuela S.A passou a ser questão de tempo, até que no caminho surgiu uma pedra chamada Hugo Chaves.

 

Com coragem bolivariana e determinação espartana, Chaves cutucou   a onça com vara curta. A tal ponto que   o grande empresariado local, liderado pelos barões da comunicação do país,  se  rebelou. Em abril de 2002 tentou dar um golpe de Estado, encarcerando o presidente da república.  O  golpe fracassou , porque não contavam os golpistas que Hugo Chaves tinha  ao seu lado o povo e forças leais do exército.

 

De volta ao Palácio de Miraflores, o presidente deposto ensaiou um gesto de bondade,  sendo duro mas sem perder a ternura: “ Faço um chamado aos meios de comunicação. Por Deus! Reflitam, mas de uma vez por todas. Esse país também é de vocês (...)”.

Claro que os barões da comunicação nem ligaram para o apelo, que julgaram falso. De nada adiantava a tentativa de pacificação, porque o que estava por trás do frustrado golpe eram interesses e inconfessáveis . Hugo Chaves, como se sabe, continuou sendo hostilizado ,  dentro e fora da Venezuela, ao ponto de levar uma  carraspana corretiva do Rei  Juan Carlo da Espanha, naquele célebre “por que não te calas, hombre?”.


O fato concreto  é que Chaves , que se aproximava cada vez mais   de Fidel Castro, virou satanás para o poder econômico da  meca do capitalismo. Aqui no Brasil, evidentemente estimulada pelas grandes publicações impressas e redes nacionais de TV, Globo à frente, o ódio do presidente Lula aumentou à medida em que ele se aproximava e se solidarizava com Hugo Chaves.
 A lembrar que  Chaves não foi o único a reivindicar o personagem Simón Bolívar. O nome de Bolívar foi apropriado por um sem número de lideranças e movimentos políticos na América Latina nos quase 200 anos que nos separam de sua morte. Seus seguidores estão espalhados pelo continente  e os efeitos das ações do Libertador parecem eternizados pela história.
Pouco importa saber sobre  o pensamento de Simón Bolívar,  que liderou guerras de independência na América do Sul, exercendo influência direta na consolidação das repúblicas da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia.  Ele  foi um  revolucionário,  filho da aristocracia basca, que visava a emancipação dos estados latino-americanos dos interesses econômicos, políticos, culturais e doutrinados da Espanha.  Logo, os ideais de libertação de Bolívar tinham pouca ou quase nenhuma sintonia com o combate à pobreza da população nativa.  

Sendo assim, o problema do “bolivarismo”  que, por má fé ou ignorância,  a elite brasileira somatiza  , não é Simón Bolívar e sim o fantasma de Hugo Chaves. E convenhamos: a alma penada de Bolívar sobrevoa o continente mas a de Chaves não vai além da Cordilheira dos Andes.

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