10 de dezembro de 2014

“Pé Vermelho”, uma discussão fora dos trilhos



                                                                                                 
Houve um tempo em que se viajava muito de trem. A viagem era demorada, mas segura e, dependendo da classe, prazerosa. Mas hoje  a realidade é outra. E sendo outra, a discussão em torno do trem  “Pé Vermelho”, perde o sentido, na medida em que é levada inteiramente para o campo da demagogia. Isso, pela simples e boa razão de que antes de se reativar esse trem de passageiros do Norte do Paraná é preciso incrementar o sistema de transporte ferroviário de carga no Estado, começando pela modernização dos vagões que, como se vê quando passa um comboio da ALL, estão caindo aos pedaços.

Investir no transporte ferroviário é coisa da modernidade, porque é um transporte  eficiente e infinitamente mais barato de que o rodoviário. Por isso, acho que o Brasil andou na contramão da história nas últimas décadas,  principalmente a partir dos anos 1970, quando , no período do “milagre”,    construiu a  Ferrovia do Aço e pouco mais tarde (1982/1985),  a Estrada de Ferro Carajás.

Agora , a passos de tartaruga, caminhamos para ter a Norte Sul  e  a  Ferronorte, com tentativas, ainda tímidas, de expansão dos trilhos em pelo menos mais 1,8 mil km pelos estados de Pernambuco, Mato Grosso, Tocantins e Goiás. Nossa malha ferroviária chega (ainda) perto dos 30 mil km, boa parte inoperante. É menos do que  tínhamos nos anos de 1950, quando o Brasil chegava próximo dos 40 mil km, mesclando trens cargueiros com trens de passageiros.

 Pouca importância se dá ao fato, mas o custo do transporte rodoviário é muito alto para o país, sem contar que pouco eficiente. Quantos caminhões são necessários para levar para o Porto de Paranaguá  a mesma quantia de soja que leva uma composição férrea? Não sei, mas quem é da área certamente sabe que são centenas, talvez milhares  e a custos sabe-se lá quantas vezes maior. Portanto,  antes de  levantar a bandeira do trem de passageiros, as lideranças locais e regionais deveriam, primeiro, questionar a qualidade do sistema de transporte ferroviário de cargas, totalmente sucateado. E só não está pior graças a alguns grupos empresariais que se uniram para comprar vagões da China e melhorar as condições de acondicionamento dos produtos que exportam, via  Porto de Paranaguá.

Questionar a privatização absurda que fizeram  da  RFFSA, mandando-a para o arquivo morto da história, isso ninguém quer . E sabe por que? Simplesmente porque não é tema que rende dividendos eleitorais. Já o “Pé Vermelho” dá bons argumentos para serem desenvolvidos no palanque eletrônico.  É de bom alvitre, por tanto, que a demagogia do trem de passageiros seja substituída pela defesa sincera de um projeto de modernização do transporte ferroviário de carga. E aí sim,  a discussão do resgate histórico do trem de passageiros no Norte do Paraná  fluiria naturalmente.

Só a título de curiosidade:  o fantasma de uma invasão argentina no período que antecedeu a II Guerra Mundial assombrava os militares brasileiros. Isso explica a bitola estreita  nas ferrovias do sul do Brasil . Ela decorre, portanto, do  medo  existente   de que os argentinos pudessem invadir o nosso País via trem, já que lá a bitola é larga. 

Por falar nisso, alguém se lembra do que aconteceu com a estação ferroviária de Maringá, por onde chegaram sonhos e de onde partiram desilusões? A Ferroviária , local de desembarque de muita gente que para cá veio fazer história, foi simplesmente demolida, como ocorreu com a rodoviária velha, jogada no chão a golpes de insensatez.


Bem, mas eu estava falando de trem, de transporte ferroviário. Fiz este parêntese só para não dizerem que não falei das flores, daquelas flores que estariam embelezando o Novo Centro de Maringá caso a febre imobiliária e o conceito distorcido de modernidade de gestores estúpidos ,  não houvessem  assassinado o projeto original de Oscar Niemayer que previa, para o trecho Herval/São Paulo,  um grande jardim, concebido por  Burle Max.

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