17 de janeiro de 2015

Antes de chorar

Paulo Briguet (Gazeta do Povo)


Não chore pelo Charlie se você não se sente capaz de lamentar a morte de um inimigo. Não diga “Eu sou Charlie” se você não conseguisse dizer “Eu sou Veja”, “Eu sou Carta Capital”, “Eu sou Bolsonaro”, “Eu sou Jean Wyllys”, “Eu sou Bento XVI” ou “Eu sou Opus Dei”, caso algum crime semelhante fosse cometido contra essas pessoas ou instituições. Não lamente um assassinato se você acha que outro assassinato seria justificável. “Tira primeiro a trave de teu olho e assim verás para tirar a palha do olho do teu irmão.”
Não defenda a liberdade de expressão se você acha que determinadas expressões devem ser punidas com morte ou cadeia. Não fale contra a censura se você acha que um grupo de sindicalistas, burocratas ou comissários do povo tem o direito de decidir aquilo que as pessoas podem ler, ver, ouvir, pensar e falar. Não denuncie as ditaduras do passado se você acha que as ditaduras do presente são boas.    
Não lamente o massacre em Paris sem antes pensar que nada disso teria acontecido se os irmãos Kouachi estivessem presos em Guantánamo. Não defenda a democracia se você acha que o Estado Islâmico tem direito de cortar cabeça de jornalistas americanos ou europeus. Não peça a prisão de matadores se você defende a liberdade de terroristas condenados.
Não grite por justiça se você acha que a verdadeira culpa pelo crime é do George Bush ou do Vaticano. Não derrame suas lágrimas se você acha que o sangue pode ser derramado em nome da revolução, esse outro nome para guerra santa. Não fale em liberdade, igualdade e fraternidade sem antes condenar a guilhotina.
Não denuncie o ódio se você defende a destruição do Estado de Israel. Não se revolte contra a covardia se você acha que usar mulheres e crianças como escudos humanos é um recurso aceitável. Não se revolte contra a morte se você acha que a morte de bebês no ventre materno é um direito da mulher. Não clame pela verdade se você divulga estatísticas falsas sobre a morte de mulheres em casos de aborto.
Diante dos crimes que ameaçam se tornar a principal marca de nosso tempo – lembre-se de que você mora num país com 60 mil assassinatos por ano –, é preciso, acima de tudo, ser humilde. E humildade não é falsa modéstia, nem coitadismo. Humildade tem a mesma raiz de húmus, de homem, de humano: é o reconhecimento da verdade. É reconhecer o que se sabe e o que não se sabe. É admitir a estrutura das evidências. Por isso, antes de chorar pelo Charlie, certifique-se de que você não está mentindo para si mesmo.


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