27 de março de 2016

Nem tudo é o que parece ser


1968 -2016 - O QUE PARECIA SER, ERA; O QUE PARECE SER NÃO É
Instado por uma jovem da platéia a traçar um paralelo entre as manifestações de rua de 1968 e as de hoje, Caetano Veloso foi enfático ontem no programa Altas Horas: “O momento era outro, havia um objetivo claro que era combater a ditadura, que sufocava, prendia e matava. As manifestações de hoje se dão num quadro muito confuso e os objetivos parecem pouco claros”.
De fato, o objetivo explicitado nas ruas com multidões vestidas de verde e amarelo é , aparentemente, de indignação contra a corrupção. Digo aparentemente porque há outros interesses por trás, como o de varrer a esquerda do mapa, ressuscitar um projeto neoliberal que contemple o estado mínimo, pondo fim às políticas compensatórias implantadas pelos governos Lula e Dilma e retroagindo em conquistas sociais importantes, principalmente na área trabalhista.
A esmagadora maioria das pessoas que vai, de boa fé protestar , não propriamente contra a corrupção em si, mas contra o governo e o PT, pouco se dá conta de que o que move o PIB nacional, capitaneado pela Fiesp, é o desejo de retomar um projeto que outrora fora pilotado pelo PSDB de Fernando Henrique, que é o de privatizar tudo e reduzir o poder do Estado sobre a economia.
Em última análise, o que se pretende é flexibilizar a legislação trabalhista, enterrando de vez a CLT e mandando rezar missa de sétimo dia pela nova configuração do FGTS , sobretudo na questão da multa de 40% e por conquistas trabalhistas históricas como o 13º. salário e o atual modelo de férias , além é claro, de enfraquecer o sindicalismo obreiro.
Tudo isso é muito sutil e a trama, evidentemente, se esconde atrás do sentimento patriótico da população que, repito, vai pras ruas de camisetas amarelas e bandeiras do país, gritar palavras de ordem não contra a classe política como um todo, mas contra um partido especificamente. Sim, porque fosse verdadeiro o desejo coletivo de restauração da moralidade pública no Brasil , seria normal uma certa generalização, com a exposição de figuras de todo o espectro partidário, inclusive figuras estaduais e regionais, que se perpetuam e se enriquecem na atividade político-partidária.
Não é preciso ser cientista social para perceber que as manifestações de rua , tanto as amareladas quanto as avermelhadas, são capengas e vesgas, pois ambas fogem do foco essencial que é o do sistema de financiamento de campanhas que , apesar da nova legislação, não parece suficiente para sepultar o caixa 2.
Caetano foi preciso na seguinte observação: manifestações como a do último dia 13, por exemplo, estão longe de se parecer com aquela passeata dos 100 mil de março de 1968, quando cerca de 100 mil pessoas saíram às ruas do Rio de Janeiro para protestar contra a invasão do restaurante universitário "Calabouço", que redundou no assassinato do estudante Edson Luís de Lima Souto, por forças policiais. “Na verdade, disse Caetano Veloso, as manifestações desse 13 de março tem mais para a Marcha da Família com Deus pela Liberdade do que com o protesto dos 100 mil”. Assino embaixo.

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