19 de dezembro de 2017

A hora e a vez da farsa



Hegel, o grande filósofo alemão, observava que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem duas vezes, pelo menos. Mas foi Karl Marx, outro filósofo alemão, quem completou: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.
O momento politico brasileiro nos leva a refletir sobre isso, a partir da tragédia de 1961 quando, para impedir a posse de Jango, os militares impuseram o parlamentarismo, fazendo do substituto natural de Jânio Quadros (que renunciara ao mandato) uma espécie de rainha da Inglaterra.
A tragédia não se completou nesse primeiro momento, porque dois anos depois João Goulart conseguiu derrubar o sistema parlamentarista por meio de um plebiscito. Mas a tragédia acabou se consolidando em 1964 com o golpe que depôs o presidente e jogou o Brasil num longo período de trevas, que durou até o fim do governo Figueiredo em 1985.
Pois não é que 54 anos depois surge a possibilidade do parlamentarismo ressurgir, dessa vez certamente como farsa? E ressurge, pasmem, pela iniciativa de um ministro da mais alta corte do país. Gilmar Mendes protocolou no Senado uma proposta de emenda constitucional, que muda o regime de governo do Brasil, de presidencialista para um semipresidencialismo, com amplos poderes para o Congresso Nacional e poder quase nenhum ao presidente da república eleito em 2018, posto que haveria aí a figura de um primeiro ministro meia-boca.
O texto, segundo o noticiário político, teria sido gestado a quatro mãos – as mãos de Gilmar e as de Michel Temer. Mas sua inspiração, com toda certeza, vem de setores ligados à elite empresarial brasileira, mas sem o apoio (ainda) da caserna.
Ou seja, estamos diante daquilo que Marx apontou como farsa, mas que se concretizar pode significar também o prolongamento de uma tragédia, que começou com o golpe parlamentar do impeachment e caminha com celeridade para o desmonte total do estado de bem-estar social previsto na Constituição Cidadã de 1988.
No fundo, no fundo, fica muito claro que o objetivo primeiro da farsa montada via Gilmar Mendes é amarrar braços e pernas do presidente eleito ano que vem, que pode ser Lula ou algum político de centro-esquerda que ele apoiar, caso venha a ser impedido de concorrer pelo TRF4.

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