2 de julho de 2018

Eram todos pobres, quase todos pretos...


A primeira edição de CAPITÃES DA AREIA, que saiu em 1937, pouco depois de implantado o Estado Novo, foi apreendida e queimada em praça pública. A segunda edição circulou só em 1944, como se a grande obra de Jorge Amado surgisse das cinzas, tal qual uma Fênix. Li CAPITÃES DA AREIA quando fazia o curso de admissão ao ginásio no Grupo Escolar Loyde Novaes, hoje Escola Estadual Brasílio Itiberê, na Zona 2.

Tempos atrás, passando por um cebo no Largo da Ordem, em Curitiba, me deparei com um exemplar da 65ª. edição de CAPITÃES DA AREIA. Comprei-ô-ô, para presentear a mim mesmo. Mas não o havia lido. Só agora, mexendo num guardados aqui em casa, localizei o livro, que estou devorando nesses dias de Copa do Mundo e período pré-eleitoral. Editado em várias línguas (seguramente mais de 10) e adaptado para o teatro e para o cinema, a vida dos meninos de rua da Salvador dos anos 30, traduzida de maneira quase profética pelo grande escritor baiano, é um retrato de ponto grande dos dias atuais. 


Nada mudou, a não ser o contexto histórico. Os adolescentes que a noite dormiam sobre o trapiche e de dia praticavam pequenos furtos na Salvador do itabunense Jorge não eram diferentes dos que hoje ocupam as cracolândias e fumódromos das grandes e médias cidades do Brasil. O preconceito de que são vítimas também não mudou, pelo contrário, ampliou-se e a dimensão da tragédia social retratada na obra de Jorge Amado é outra, pois foi ampliada pela concentração cada vez mais brutal de renda e oxigenada pelo preconceito que, usando a classe média idiotizada, a elite vem potencializando.

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