
Fernando Lugo era bispo e, instado pelo Vaticano abandonou a batina para
seguir carreira política, seguindo sua nova vocação e os apelos da população
pobre do Paraguai que o queria na presidência da república. Mas Lugo tinha uma
convivência conflituosa com os grandes latifundiários do país vizinho, em
defesa naturalmente dos campesinos explorados e massacrados pela sanha dos
acumuladores de terra.
Diante disso, Lugo não se sustentaria no poder. Não tinha nada,
absolutamente nada que o desabonasse do ponto de vista do respeito ao bem
publico. Mas enquanto líder religioso cometeu algum pecado da carne, ou seja,
seu lado homem não resistia muito aos encantos de uma bela mulher. E mesmo
bispo, teve um filho com uma de suas ovelhas. Isso, por si só, não seria motivo
para que fosse apeado do poder, até porque para chegar à presidência teve que
renunciar ao sacerdócio.
O impeachment do presidente Fernando Lugo decorreu de um julgamento
rápido, com prazo de defesa bastante exíguo. Ficou claro que as acusações e o
andamento do processo seguiu , única e exclusivamente, pelo viés ideológico, já
que o presidente , por seu discurso e suas ações, era um homem de esquerda e
vinha fazendo um governo de forte conteúdo social
A defesa de Lugo no parlamento paraguaio foi consistente, mas de nada
adiantou porque já havia um julgamento prévio, com sentença pronta , só
esperando o momento apropriado para a deposição ser oficializada. E assim, o
parlamento tirou do poder, do dia pra
noite, um presidente eleito pelo voto popular.
A decisão do Senado Paraguai foi
criticada no mundo inteiro, pela imprensa internacional e pela diplomacia de
vários países democráticos, inclusive o Brasil. Mesmo sento um impedimento
convalidado pelo parlamento, o caso Lugo não deixou de ser classificado como
golpe, um golpe nas instituições democráticas, que, pasmem, acabou contaminando
outras democracias, que apesar de sólidas do ponto de vista constitucional,
passaram a sofrer ameaças constantes de forças internas (e externas) , no caso
das internas , tomadas de urticária ante programas de transferência de renda.
O Brasil é a bola da vez. O pretexto até que justifica uma onda de
indignação nacional, mas aqui a Polícia Federal está agindo e à Justiça cabe o
papel de condenar e mandar prender os envolvidos em assaltos aos cofres
públicos. Há um uma onda de repulsa ao
PT e , sinceramente, não discordo dela porque o Partido dos Trabalhadores fez
por merecer ao se nivelar ao que há de pior na política partidária brasileira.
Quando chegou ao poder central com a eleição de Lula em 2002, todos esperavam
que de hora em diante o governo petista colocaria fim a determinadas práticas fisiológicas,
que caracterizaram o espectro partidário ao longo dos anos no país. Ledo
engano. Em nome de um projeto de poder, de no mínimo 20 anos, o PT , então sob
a liderança de José Dirceu, meteu os pés pelas mãos.
Veio o mensalão e o petrolão e o PT caiu em desgraça. Não apenas pelo
pecado de entrar de cabeça nos esquemas de corrupção disponíveis, mas porque
acabou fazendo o que sempre condenou, cometendo então o pecado do pregador. Mas
vamos e venhamos, isso não justifica o impeachment da presidente Dilma que
todos reconhecem, é uma mulher honesta e jamais cometeu qualquer crime contra o
erário.
O argumento é frágil, posto que já está mais do que tecnicamente
provado, que as tais pedaladas e os decretos suplementares não constituem crime
de responsabilidade. Caso se constituísse, seria o caso de impichar a maioria
dos governadores e prefeitos. E nem teria sentido nomear o ex-governador de
Minas, Antônio Anastasia, reconhecidamente um campeão de pedaladas enquanto
esteve no Palácio da Liberdade, como relator do processo de impeachment no
Senado.
Tal qual ocorreu no país vizinho, portanto, o impedimento da presidente
Dilma pode sim ser chamado de “Golpe Paraguaio”. Principalmente porque urdido
no Palácio Jaburu, onde o vice Michel Temer, que também pedalou e assinou decretos
suplementares enquanto interino, articula
desde o início, os passos do processo de impeachment, em companhia de
ninguém menos que Eduardo Cunha e assessorado por lideranças igualmente
envolvidas em escândalos de corrupção, inclusive com citações em delações premiadas,
caso de Romero Jucá, Aécio Neves, José
Serra , etc.
Dizem que não é golpe porque o Supremo aprovou os ritos e alguns
ministros togados sustentam que o processo é legal. Mas é inegável a existência
da trama política liderada por Temer e patrocinada pela Fiesp, que dele espera
a supressão de alguns direitos trabalhistas e um ponto final em políticas de
transferência de renda implementadas pelo presidente Lula e mantidas por Dilma. Por tudo isso, o impeachment é ilegítimo, por tudo isso é adequado chamá-lo de golpe. Esse é o ponto.
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