5 de agosto de 2013

O personagem Dom Jaime

Muito  ainda se vai falar e escrever sobre  Dom Jaime, o jacarandá, na definição precisa do padre Orivaldo Robles. Não tem como se contar a história dessa cidade, sem que esteja no centro de qualquer narrativa o primeiro bispo dessas paragens. Mais do que pastor, líder religioso de uma imensa comunidade católica, Dom Jaime era a essência do ser humano, com suas qualidades, defeitos, coerências e  paradoxos.   Aqui liderou a Marcha da Família com Deus pela Liberdade ,  um explodir de manifestações públicas contra as reformas de base do presidente João Goulart. Mas aqui, também fez coro aos que defendiam a democracia e questionavam com dureza a desigualdade social.
Ficou amigo dos militares,  não por conta da marcha mas por razões outras que ele nunca contou publicamente. Homem de personalidade forte e um poder de persuasão  incrível, Dom Jaime teve participação ativa no processo de desenvolvimento do município. Contribuiu de maneira decisiva com a vocação de cidade universitária que Maringá tem hoje. Tanto que  o próprio prefeito Adriano Valente  (+) ao lado de quem abraçou causas coletivas de peso, reconhecia a importância do arcebispo no processo de criação da UEM.
A liberação da concessão do  primeiro canal de televisão de Maringá teve participação direta de Dom Jaime. Os empresários Samuel Silveira e Joaquim Dutra recorreram à “Sua Excelência Reverendíssima”  para  ajudá-los a conquistar a concessão do Canal 8.  Dom Jaime foi a Brasília e voltou com o sim do general-presidente da ocasião, salvo engano, Emilio Garrastazu Médici. Não por acaso tornou-se sócio minoritário da emissora, mais tarde vendida ao grupo RPC (Chico Cunha e Lemansk) . 
Mesmo diante da resistência da Rede Globo em alterar sua grade de programação, Dom Jaime conseguiu manter por longos anos o espaço diário da Arquidiocese, que era ocupado todas as manhãs (de segunda a sexta)  por ele e por alguns padres mais próximos da Cúria.
Em períodos  eleitorais, candidatos que  se julgavam em condições de ganhar a prefeitura tinham como compromisso inadiável da sua agenda, sessões “beija anel” com Dom Jaime, cujo apoio, às vezes até explícito, podia significar vitória  ou  ao contrário, derrota para quem enfrentasse sua oposição.
Trabalhei na Folha do Norte numa época em que o jornal fundado por Dom Jaime estava arrendado para a Dutra & Assis  (sociedade formada pelo empresário Joaquim Dutra e o jornalista A. A. de Assis). Com discrição,  Dom Jaime dava  o tom da linha editorial do matutino, que naquela época reunia em sua redação verdadeiras feras do jornalismo local, como Ivens Lagoano Pacheco, o próprio A.A de Assis, Antônio Calegari, Kester Carrara e os irmãos Ismael e Elpídio Serra.
Enfim, detalhar a riqueza biográfica de Dom Jaime Luiz Coelho só mesmo em livro, como fizeram Everton Barbosa e Luciana Penha . Mas qualquer análise sobre ele, por superficial que seja,  não  pode deixar de lado  o episódio da construção da Catedral, que o levou a se explicar perante o Núncio Apostólico.
A construção da Catedral  foi um ato de fé, coragem e visão futurista. Dom Jaime se inspirou no primeiro foguete  lançado ao espaço, vejam só, pelos soviéticos, em 1957. E com determinação espartana, levou o projeto adiante, junto com a comunidade católica local, por ele convocada. Quem se atreveria a dizer não a Dom Jaime Luiz Coelho?
Assim, da persistência e disposição inesgotável do primeiro bispo e primeiro arcebispo de Maringá, surgiu esse importante símbolo da fé católica e cartão postal da cidade que se fez canção. Grande Dom Jaime! Depois de fazer tanto por tantos aqui na terra, creio que subiu ao céu e deve estar confortavelmente sentado  à direita de Deus Pai.

        

Um comentário:

jccecilio disse...

Como se fala hoje:
Ele é o "Cara". A figura mais importante de Maringá, em todos os tempos! Adeus ao grande homem Jaime.