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A boca torta pelo uso excessivo do cachimbo

É da nossa cultura política votar nos mais fortes, concentrar votos nos candidatos que polarizam ou quando muito, num terceiro que se equivale em estrutura de campanha. Quando num pleito majoritário surge algo diferente dessa lógica, o vencedor ganha status de fenômeno eleitoral, como ocorreu com Ricardo Barros em 1988 e com José Cláudio em 2000. Cada caso é um caso e nenhum guarda semelhança com o outro. No primeiro, Barros emergiu da penumbra, beneficiado pela briga feroz entre João Preiss e Ademar Schiavone e, reconheça-se, pela maneira fácil como dominava a câmera e pela fluência verbal que seduziu o eleitorado tal qual um encantador de serpente.


A eleição de Zé Cáudio foi viabilizada em circunstâncias diferentes e por três fatores básicos: o desempenho pessoal, a força da militância e o desgaste dos políticos tradicionais, mercê do esquema de corrupção Jairo-Paulichi. Zé Cáudio e o PT convenceram o eleitor serem diferentes. Na época , por mais que tirasse o sono da elite econômica local, o Partido dos Trabalhadores era meio mulher de César, ou seja, não só era ideológico e puro, como parecia ideológico e puro. A bandeira vermelha da moralidade tremulou, a estrela brilhou pelos quatro cantos da cidade.

De lá pra cá, a política local voltou aos seus trilhos normais, com as campanhas se nivelando na prática das ruas e sem a presença de uma virgem vestal.

Em 2008 como em 2004 prevaleceu o poder de persuasão de um novo fala fácil, tal qual o de 1988, com desenvoltura admirável diante das câmeras e o mesmo tom de palestrante de cursinho walita. Ao desempenho pessoal, somou-se o poderio econômico e práticas nada republicanas na forma de disputa do voto.

Chegamos a 2012 e o cenário eleitoral não foge do tradicional, ou seja, do embate entre dois grupos hegemônicos, que se confrontam em clima quente nas ruas,apesar do ambiente paz e amor mostrado pela mídia eletrônica.

A polarização, que se deu inclusive na divisão do tempo de televisão, devido aos arcos de alianças formados a partir de uma relação ” mariposa-lâmpada” (sua bênção, Adoniran Barbosa) chega ao dia da eleição apresentando resultados absolutamente previsíveis. Aqui não houve terceira via, porque nenhum candidato entre os intermediários se destacaram pelo exercício pedagógico da crítica, corroborando a tese do “bateu, caiu”, o que confere ao processo eleitoral uma espécie de paz de cemitérios.

Num quadro assim, é natural que a polarização induza ao voto útil e provoque o esvaziamento dos demais candidatos que ficam com percentuais bem abaixo de suas marcas históricas, como é o caso de Quinteiro e Dr, Batista, sempre muito bem votados em eleições proporcionais.

Ressalte-se, entretanto, que nesta eleição Maringá traz um fato novo, da maior gravidade: a indefinição das condições jurídicas de uma das candidaturas de ponta, justamente a oficial, cujo candidato se esforçou na reta final para convencer a população de que sua candidatura está legitimada por uma decisão monocrática de um ministro , quando se sabe que o julgamento final se dará pelo colegiado do TSE.

O que pode acontecer, então, se a pesquisa do Ibope estiver errada e a soma dos demais atingirem ou ultrapassar o percentual do líder Ênio Verri é a possibilidade de uma nova eleição entre o primeiro e o terceiro colocado, em caso de cassação do segundo. Se os números de Verri e dos demais se mantiverem no patamar hoje divulgado, o deputado petista poderá ser eleito com os votos obtidos no primeiro turno.

A realidade político-eleitoral de Maringá continuará sendo a mesma nas eleições seguintes, caso não tenhamos no Brasil uma reforma política, que coloque diques de contenção ao abuso do poder econômico que contamina o processo eleitoral aqui, ali e acolá. Do contrário, nossa boca continuará torta pelo uso excessivo do cachimbo.













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