Por Jânio de Freitas (Folha de
São Paulo)
Aproveite: nenhum dos seus
antepassados teve a oportunidade de testemunhar um nível de maluquice dos
dirigentes nacionais como se vê agora.
O passado produziu crises de
todos os tipos.
O presente, porém, não é, na sua
originalidade, uma crise a mais. É um fenomenal desvario.
Uma orgia dos poderes
institucionais, tocada pela explosão de excitações da mediocridade e da
leviandade brasilianas.
O ministro Celso de Mello cobrava
ontem, no Supremo Tribunal Federal, a nossa “reverência à lei fundamental”, à
Constituição, e “aos Poderes da República”.
Qual dos próprios Poderes faz tal
reverência?
Ilegalidades são neles aceitas, e
aproveitadas, inclusive como normas.
A exemplo do custo, em
“benefícios”, de cada congressista, sem sequer a contrapartida de obrigações
rígidas na função parlamentar; ou dos descaminhos processuais no Judiciário,
nos quais o desprezo de prazos é sempre a negação da justiça merecida por uma
das partes; ou da ilegitimidade de um Executivo que entregou parcelas
importantes do seu poder a corruptos históricos, sem sequer despertar a
administração sonolenta.
É essa natureza despudorada imposta às instituições que se eleva
agora ao paroxismo.
E rompe as barreiras restantes,
mais aparentes que reais, na confrontação que disputa hierarquia e
predominância entre os Poderes.
Presidente do Supremo, a ministra
Cármen Lúcia tem ilustrado a explosão com intervenções cíclicas talvez
apropriadas, nas circunstâncias, mas inesperáveis.
Já na posse, concitou os
integrantes do Judiciário à união porque “unidos seremos mais fortes”.
NA INTENÇÃO DE
força
estava implícita a ideia de combates não perceptíveis nas perspectivas do
Supremo e do Judiciário.

Muito ao contrário, em um e em
outro depositavam-se esperanças de solução mansa e inteligente para muitas das
aspirações e frustrações da cidadania.
Em seguida a informar-nos que “o
papel da Justiça é pacificar”, os modos suaves e o conceito de serenidade judicial
da ministra nos trazem, como a erupção de profundezas ígneas, um brado
alarmante: (…) “o Estado democrático previsto tem sido, ou parece ser até aqui,
nossa única opção. Ou a democracia ou a guerra”.
Completou-se o chamado à união do
Judiciário para se tornar mais forte, mas a alternativa apresentada pelosAUTORES
do impeachment, e pelo alheamento do
Supremo na ocasião, não tinha duas hipóteses.

Faz lembrar o madrilenho “No
passarón”, de La Passionaria.
Seria uma conclusão da presidente
do Supremo sobre o presente conflitivo? Uma proposta? Alguma nostalgia, talvez?
Ininteligível.
Sobretudo diante do que se
constata: Renan Calheiros desafiou o Supremo e venceu –o que não deve ser
exemplo para nenhum cidadão, por mais honra e razão que tenha.
A lógica das guerras e dos
privilégios é complexa demais para os não beneficiários.
No reino das extravagâncias
institucionais, nãoCABE ESPERAR UM
encaminhamento razoavelmente saudável.

Os que me desancaram quando
escrevi que a crise passava de política a institucional afiem, agora, os
insultos: se ainda vale alguma coisa o que testemunhei, o carnaval
institucional está muito perto de capítulos dramáticos.
Tomara que ao menos
não passem a trágicos.
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