Darcy Ribeiro dizia que a crise da educação brasileira não era uma crise era um projeto. O colégio cívico-militar deixa bem claro que a militarização da escola pública é um projeto de poder.
Sérgio Moro deu entrevista à CNN e mostrou-se despreparado e por fora de tudo quando foi instado sobre problemas sociais. Não consegue se aprofundar em nada, não vai além do senso comum, seja qual for o tema abordado. Ele só não é tão raso quanto seu ex-chefe Bolsonaro, mas consegue ser pior do que o cabo Daciolo. O papo do ex-juiz tem a profundidade de um pires. Essa é a terceira via que a Globo e certos setores da elite e da classe média metida a besta defendem?
Comentários
Trata-se, segundo o governo do filho do apresentador Ratinho, do SBT, “do maior projeto do país nessa área”. Dito de outra forma, o Paraná está comprando no atacado o que até agora é a única ideia concreta do governo Jair Bolsonaro para a educação.
O MEC, recordemos, passou desde janeiro de 2019 pelas mãos de um incompetente indicado por Olavo de Carvalho, depois foi entregue a um valentão de redes sociais que lida mal com a ortografia e a democracia (e precisou sair correndo do país após chamar os ministros do Supremo Tribunal Federal de vagabundos e dizer que eles deveriam ser presos) e a um militar que mentiu no currículo. Agora, o ministério está nas mãos dum pastor evangélico que, quatro meses após se sentar na cadeira, ainda não disse a que veio – apesar de já ter deixado escapar uma declaração homofóbica.
Confiar em projeto concebido num ministério com tal histórico de gestão é tão temerário quando pedir a Ricardo Salles para cuidar das plantas de casa quando você precisa viajar. Mas foi a isso aí mesmo que Ratinho Junior resolveu entregar o futuro de 129 mil estudantes da rede pública.
Para convencer a patuleia de que a mera entrega da direção a policiais militares aposentados irá transformar escolas públicas com “baixos índices de fluxo e rendimento escolar” num “modelo vencedor” (os termos entre aspas são do material de propaganda oficial), Ratinho Junior e seu secretário da Educação, Renato Feder (que foi cotado para ser ministro após as demissões do imprecionante Abraham Weintraub e do breve e criativo Carlos Decotelli), lançaram mão de uma mentira: a de que “a média das escolas cívico-militares no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica é 20% maior do que na educação tradicional”.
Eu explico a redação ruim da propaganda oficial. Ratinho e Feder quiseram dizer que o Ideb comprova que a militarização das escolas melhora o rendimento dos alunos. Estão mentindo. Uma reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em fevereiro passado, explica que “escolas militares têm desempenho similar ao de unidades com perfil parecido”. Ainda: “acima da média, centenas de colégios estaduais com alunos do mesmo perfil socioeconômico têm resultado melhor”.
A presidente-executiva do respeitado Todos pela Educação, Priscila Cruz, também já sepultou a alegada superioridade das escolas cívico-militares, como gostam de chamá-las seus defensores. “Do ponto de vista técnico, o modelo não se sustenta”, ela disse, em entrevista ao UOL concedida há um ano.
Perguntei ao governo do Paraná em que se apoia a afirmação da propaganda oficial. A resposta: “Os Colégios da Polícia Militar implantados pela atual administração apresentaram bons resultados no último ranking do Ideb, mesmo sendo escolas novas. Baseado nessa experiência e também nos desempenhos apresentados por outras por modelos similares de escolas militares, há a previsão da melhoria da qualidade dos colégios cívico-militares”.
Preste atenção à (nem tão) sutil diferença entre Colégios da Polícia Militar e colégios cívico-militares (sic). Nela, está a confissão da mentira que Ratinho e Feder tentam empurrar aos paranaenses.
Mas o governo tenta fazer os paranaenses – e este jornalista – acreditarem que basta colocar um policial aposentado na direção, entregar uniformes de militares às crianças e obrigá-las a cortar o cabelo à moda do quartel e a cantar o hino nacional para que as escolas ruins em que estudam alcancem os mesmos bons resultados que os Colégios da Polícia Militar colecionam há décadas.
Você acredita que vai dar certo? Eu também não.
Outro problema: o próprio governo do Paraná me disse ter selecionado os 215 colégios que serão entregues à administração de PMs a partir de “características como alto índice de vulnerabilidade social, baixos índices de fluxo e rendimento escolar” e (também importante) “não ofertarem ensino noturno”.
Um levantamento do sindicato dos professores estaduais do Paraná, o APP-Sindicato, porém, contou nada menos que 117 escolas com ensino noturno entre as 215 selecionadas. Em Campo Mourão, uma próspera cidade do rico noroeste paranaense, região de terra roxa e fértil produtora de soja, três dos quatro colégios que serão militarizados estão fora dos critérios definidos pelo próprio governo. Um deles, o Colégio Vinícius de Moraes, dobrou a nota do Ideb em relação à prova anterior. Isso o colocaria fora dos critérios do programa. Mas ele também foi colocado na lista dos militarizáveis.
A suspeita, entre professores com quem conversei, é de que o governo busca militarizar escolas que já funcionam bem para poder vender sua ideia como bem sucedida.
Já seria ruim se acabasse aqui. Mas piora.
Vão transformar 10% das crianças em robozinhos obedientes. Batendo continência para tipos como Bozo, Pazuello, Heleno etc. Dignos de pena.
Não falta mais nada!!! Quanta estupidez!!!
O modelo vai levar de carrada. O país parece ansioso por uma geração ordeira e obediente, como um rebanho.